17 março, 2006









08 março, 2006

mudo convite

sim, atira-me pedras,




e que sejam teus dedos

05 março, 2006

comentário geral

a pergunta é: por que ando tão chata?

02 março, 2006

housewife



Some women marry houses.
It’s another kind of skin; it has a heart,
a mouth, a liver and bowel movements.
The walls are permanent and pink.
See how she sits on her knees all day,
faithfully washing herself down.
Men enter by force, drawn back like Jonah
into their fleshy mothers.
A woman
is her mother.
That’s the main thing.

Esposa do lar

Algumas mulheres desposam casas.
É um outro tipo de pele; tem um coração,
uma boca, um fígado e movimentos peristálticos.
As paredes são duradouras e cor-de-rosa.
Veja como ela se senta sobre os joelhos o dia inteiro,
lavando-se minuciosamente.
Os homens entram à força, sugados como Jonas
pra dentro de suas polpudas mães.
Uma mulher é sua mãe.
Isto é o mais importante.
Anne Sexton, trad. c.

18 fevereiro, 2006

pedra papel tesoura

você dizia pára, eu me sinto apedrejada, mas as bolinhas de papel eram só meus dedos.

14 fevereiro, 2006

e o mais importante

- como criticar paulo coelho sem discutir gosto?

12 fevereiro, 2006

gosto não se discute (?)

e por falar em dito popular, lembrei outro deste naipe: religião, política e futebol não se discutem. e me vieram as (fa)tais perguntas:
- futebol é gosto, mas será que gosto é religião?
- política é gosto ou gosto é política?
- charge de maomé é mau gosto ou é política?
- maomé pode ser discutido? e a santa, pode ser chutada?
- e funk, pode ser execrado sem ser discutido?
- e discutir é sinônimo de julgar? e discordar, será?
- expor um gosto ou uma opinião já é discussão?
- discordar de um gosto é discussão?
- e o gosto de discutir, é discutível?
- e a discussão, é saudável?
- e a supressão da discussão, quando é saudável?
- entre judeus e muçulmanos há discussão?
- e a provocação, é discussão?
- e o rock and roll, é provocação? ou virou religião?

mas ainda bem que dito popular a gente pode discutir.

09 fevereiro, 2006

no meio do tempo




e a saudade será mesmo estranha e infalível



02 fevereiro, 2006

luto

26 janeiro, 2006

devo merecer

aconteceu já faz um tempo. entrei no ônibus e sentei do lado de um senhor que devia orçar pelos cinqüenta anos. de repente:
- engraçado como que no mundo tem tanta gente feia e bonita tudo misturada, né?
obviamente concordei. depois de três segundos de silêncio:
- mas uma coisa que eu num entendo é como as pessoa bonita casa com as feia...
- ...
- porque as pessoa bonita devia casar com as pessoa bonita, aí os filho ia nascer tudo bonito, mas se mistura os feio com os bonito, começa a nascer gente feia...
- ...
- por isso que no brasil tem tanta gente feia, mistura tudo, os branco com os preto, e aí fica feio. cada um devia preservar a sua cor, não podia misturar desse jeito. e as moça clarinha de hoje tão tudo gostando dum escurinho... eu tenho uma sobrinha, assim clarinha que nem ocê, e ela casou com um moço assim dessa corzinha - e apontou a alça preta da minha mochila...
- mas eu acho que tem gente branca que é muito feia também, e tem gente misturada que é bonita...
- não, olha como que o povo brasileiro é feio e os alemão são bonito, eles são bonito porque num mistura... cada um tem que preservar sua cor...
- mas quer dizer então que a gente também não pode tomar sol?
- mas sol não muda a cor da gente, quem é branco continua branco. olha aqui, eu trabalho na roça debaixo de sol todo dia - e me mostra o braço supostamente branco.
- ...
silêncio até eu descer do ônibus. fiquei pensando que ele devia mesmo estar me achando muito feia.

11 janeiro, 2006

coca-cola é isso aí

Hoje fui ao dentista.

Quando era criança, não tinha medo de altura, de avião, de me cortar lavando o liquidificador, de pular bem do alto, de escorregar no corrimão, de tomar choque, de raio, relâmpago, trovão e muito menos de dentista. Hoje tudo me assusta, dá vertigem, aflição ou gastura.

Acho que é porque sou muito resistente à anestesia.

06 janeiro, 2006

trocadilho infante pra ser lido com acento lusitano

kafkar é o contrário de lair, ribeiro.

uma singela nossa homenagem à mestra.

28 dezembro, 2005

por pura cor vadia

por pura cor vadia

muito de leve eu podia te tocar.

mas não.

purpúrea covardia.

22 dezembro, 2005

por ocasião do natal

The author of the Jesus papers speaks



In my dream
I milked a cow,
the terrible udder
like a great rubber lily
sweated in my fingers
and as I yanked,
waiting for the moon juice,
waiting for the white mother,
blood spurted from it
and covered me with shame.
Then God spoke to me and said:
People say only good things about Christmas.
If they want to say something bad
they whisper.
So I went to the well and drew a baby
out of the hollow water.
Then God spoke to me and said:
Here. Take this gingerbread lady
and put her in your oven.
When the cow gives blood
and the Christ is born
we must all eat sacrifices.
We must all eat beautiful women.






Fala o Autor dos escritos de Jesus


No meu sonho,
eu ordenhava uma vaca,
o úbere medonho
como um enorme lírio de borracha
suava entre meus dedos
e enquanto eu puxava,
esperando o suco de lua,
esperando a branca mãe,
jorrou sangue
e me cobriu de vergonha.
Então Deus me falou, e disse:
As pessoas só dizem coisas boas na época do Natal.
Se querem dizer algo ruim,
elas sussurram.
Aí eu fui até o poço
e puxei um bebê da água profunda.
E então Deus me falou, e disse:
Eis aqui. Tome uma mulher de bolo de gengibre
e ponha no seu forno.
Quando a vaca dá sangue
e é nascido o Cristo
todos devemos comer sacrifícios.
Todos devemos comer belas mulheres.
Anne Sexton, trad. c.

12 dezembro, 2005

por ocasião de uma releitura d'O Cortiço

Fado tropical


Chico Buarque - Ruy Guerra



Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal


"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo...(além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."


Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa..."


Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

06 dezembro, 2005

palavradura

rude

a pa-
lavra-
dura

urdidura
escalavra
e
caladura

26 novembro, 2005

segunda primavera

porque este foi um ano de dois invernos e duas primaveras


porque a fome sempre chega


porque o céu pode ser azul mesmo quando neva


porque os invernos se revezam


porque não neva lá fora


porque voltarei a comer pétalas de flor


porque desmancharei laços de fita

16 novembro, 2005

cuidado com o vício

cenouras*

(frederyko)



eu hoje tenho um assundo delicado pra falar com você
eu muito tenho meditado sobre a vida que você esqueceu
você está com a cabeça virada para o nada
e não procura nem saber o que eu penso e o que faço
eu acredito que você ainda tenha uma pequena chance
e eu encontrei a solução pro seu caso
e lhe proponho um tratamento pra você melhorar


eu vou plantar cenouras na sua cabeça




*post com agradecimentos especias à moça do laço de fita, que encontrou-me a música

08 novembro, 2005

pelos ares tão parados deste blog

eu ainda te dedicaria músicas alheias


bandeira


(zeca baleiro)


eu não quero ver você cuspindo ódio

eu não quero ver você fumando ópio pra sarar a dor

eu não quero ver você chorar veneno

não quero beber o teu café pequeno
eu não quero isso seja lá o que isso for

eu não quero aquele eu não quero aquilo

peixe na boca do crocodilo

braço da vênus de milo acenando ciao

não quero medir a altura do tombo

nem passar agosto esperando setembro
se bem me lembro

o melhor futuro este hoje escuro

o maior desejo da boca é o beijo
eu não quero ter o tejo me escorrendo das mãos

quero a guanabara quero o rio nilo

quero tudo ter estrela flor estilo

tua língua em meu mamilo água e sal

nada tenho vez em quando tudo

tudo quero mais ou menos quanto

vida vida noves fora zero

quero viver quero ouvir quero ver

(se é assim quero sim acho que vim pra te ver)

04 novembro, 2005

Sixth Psalm (3ª parte, e última)

For America is a land of Commies and Prohibitionists but Anne does not see it. Anne is locked in. The Trotskyites don’t see her. The Republicans have never tweaked her chin for she is not there. Anne hides inside folding and unfolding rose after rose. She has no one. She has Christopher. They sit in their room pinching the dolls’ noses, poking the doll’s eyes. One time they gave a doll a ride in a fuzzy slipper but that was too far, too far wasn’t it. Anne did not dare. She put the slipper with the doll inside it as in a car right into the closet and pushed the door shut.


For America is the headlight man at the Ford plant in Detroit, Michigan, he of the wires, he of the white globe, all day, all day, all year all his year’s headlights, seventy a day, improved by automation but Anne does not.


For America is a miner in Ohio, slipping into the dark hole and bringing forth cat’s eyes each night.


For America is only this room… there is no useful activity.


For America only your dolls are cheerful.


Anne Sexton



Porque a América é uma terra de comunas e proibicionistas, mas Anne não vê isso. Anne está trancada. Os trotskistas não a vêem. Os republicanos nunca torceram o queixo dela, pois ela não está lá. Anne se esconde do lado de dentro a dobrar e desdobrar rosa após rosa. Ela não tem ninguém. Ela tem Christopher. Eles se sentam na sala, beliscando o nariz das bonecas, furando os olhos delas. Uma vez eles deram carona pra uma boneca numa pantufa de pelúcia, mas aquilo estava muito distante, muito longe não foi. Anne não arriscou. Ela pôs a pantufa com a boneca dentro como num carro direto pro armário e trancou a porta.


Porque a América é o homem-farol na fábrica da Ford em Detroit, Michigan, ele dos fios, ele do globo branco, o dia inteiro, o dia inteiro, o ano inteiro todos os faróis do seu ano inteiro, setenta por dia, aperfeiçoado pela automação mas Anne não.


Porque a América é um mineiro em Ohio, deslizando para um buraco escuro e trazendo à tona olhos-de-gato a cada noite.


Porque a América é apenas este quarto... nenhum afazer é útil.


Para a América apenas suas bonecas são alegres.


trad. chamilly